Chicago, junho de 1962: um moleque de 12 anos chamado Stevland Hardaway Morris sobe ao palco do Regal Theather para participar da Motortown Revue, um show que cruza o país mostrando os artistas do selo Motown. Na mesma noite vão se apresentar pesos-pesados como The Marvelettes, Smokey Robinson & The Miracles, Marvin Gaye e Mary Wells.
O público não conhece o menino. Ele havia lançado só um compacto pela Motown, e seu primeiro LP, “The Jazz Soul of Little Stevie”, seria lançado dali a três meses.
O menino sobe ao palco, acompanhado por um homem. O menino é cego e carrega um bongô. O homem o ajuda a sentar numa cadeira e ajeita a altura do microfone. “Aqui está, senhoras e senhores, Little Stevie Wonder!”, diz o apresentador.
Stevie lidera a banda numa versão de “Fingertips”, uma canção instrumental. Ele toca bongôs, depois pega uma gaita no bolso e mostra toda sua destreza com o instrumento. O público adora. A música chega ao fim. Ou parece ter chegado ao fim.
Stevie é levado para fora do palco, mas retorna e surpreende a banda ao recomeçar a canção. O baixista Larry Moses, que havia deixado o palco para se preparar para a apresentação seguinte (de Mary Wells), volta correndo e pergunta à banda: “What key?” (“Qual a clave?”, ou "Qual o tom?"). O baterista é ninguém menos que Marvin Gaye. Stevie comanda o público, pede palmas, pede gritos, e todos obedecem. O clima é de euforia.
Veja estas cenas e responda: não é um dos momentos sublimes do pop?
Stevie Wonder - Fingertips Part 2.(Live)-1963 por thevideos no Videolog.tv.
No ano seguinte, 1963, Berry Gordy, o genial e temperamental chefão da Motown, resolve lançar a gravação ao vivo de Stevie Wonder. Há um bafafá tremendo em cima do menino, não só por suas apresentações empolgantes, mas também por conta de um boato inventado pelo próprio Gordy: o de que Stevie seria sobrinho do também cego – e também genial – Ray Charles. Não contente, Gordy sacramenta o boato ao lançar, em junho de 1963, um disco de Stevie chamado “Tributo ao Tio Ray”.
O compacto de Stevie Wonder, “Fingertips, Parts 1 & 2”, chegou a primeiro lugar na parada da revista “Billboard”. Nessa gravação dá para ouvir claramente o “What key? What key?” de Larry Moses, aos 2m24s.
Stevie Wonder - Fingertips Part II (1963) por thevideos no Videolog.tv.
Pelos 15 anos seguintes, Stevie Wonder dominaria o pop americano com LPs extraordinários como “Signed, Sealed, Delivered” (1970), “Music of My Mind” (1972), “Talking Book” (1972), “Innervisions” (1973), “Fulfillingness’ First Finale” (1974) e “Songs in the Key of Life” (1976).
A distância que existia entre ele e seus rivais no pop era tanta que Paul Simon, ao ganhar o Grammy de melhor álbum de 1975 por “Still Crazy After All These Years”, abriu seu discurso assim: “Queria, primeiramente, agradecer a Stevie Wonder por não ter lançado um disco esse ano.”
ADEUS, NILTON SANTOS!
O texto acima estava pronto e agendado quando veio a notícia da morte de Nilton Santos, aos 88 anos.
Só vi Nilton Santos jogar em filme, mas meu avô e tios, botafoguenses roxos, veneravam o homem.
Já fotografei a “Enciclopédia do Futebol” uma vez, no fim dos anos 80, e o entrevistei rapidamente numa ocasião. Era uma pessoa adorável, um sujeito educado, bom de papo e cheio de boas histórias.
Nilton Santos jogou quatro Copas do Mundo e só vestiu a camisa de um clube. É personagem de uma época bonita de nosso futebol. Podem dizer que é saudosismo, mas o futebol de hoje é um lixo – tanto no campo quanto nas arquibancadas – comparado ao outras épocas.
Em 1990, eu trabalhava no “Jornal do Brasil”. Durante a Copa do Mundo da Itália, João Saldanha morreu. Nunca vou esquecer a reação de Nilton Santos ao ser avisado, por um repórter do jornal, da morte de Saldanha: “Ah, não, o João? Não pode ser! Não pode ser verdade!” E caiu num choro de criança.
The post Meio século de Stevie Wonder – e adeus a Nilton Santos appeared first on Andre Barcinski.